A Praça do Ferreira, Além do Esconderijo: Patrimônio de Pedra e (E)ventos.

  Afetuosamente conhecida como “a Praça”, já tivera outros nomes, por exemplo: Largo das Trincheiras, Praça Pedro II e Praça da Municipalidade, mas foi somente em 1871, depois do pedido do camarista Amaral Júnior, que a Praça passou a ser chamada de Praça do Ferreira em homenagem a Antônio Rodrigues Ferreira, o Boticário Ferreira. Fato bastante comum à época que consistia em homenagear autoridades relevantes.
 Coube a ele, como interventor municipal,  dar continuidade ao projeto de modernização de Fortaleza, herança deixada pelo prefeito anterior, conforme o Plano Diretor da Expansão e Remodelação de Fortaleza, elaborado pelo engenheiro Silva Paulet, cuja ação diretiva foi destruir o antigo alinhamento de casas do Beco do Cotovelo para fazer dele largo, pois Fortaleza estava se desenvolvendo de forma aparentemente desordenada, em função de seu desenvolvimento. Era preciso, assim, mediante intervenções urbanas, disciplinar o crescimento populacional. Para isso, foi desenhada pelo seu assistente Adolfo Herbster uma nova planta, intitulada de “Planta Topográfica de Fortaleza e Subúrbios” em 1875. Com ela, tentou-se ajuntar a planta de Paulet e sujeitar a cidade os “códigos da civilização”.
 A partir daí, essa modernização da cidade de Fortaleza tem se processado de forma excludente, patrocinada pelas elites e pela intelectualidade de ontem e da atualidade mais recente. Ela tem causado certamente um mal-estar na cultura, tanto nesta como nas cidades no mundo todo, devido a suas exigências como a ordem, a limpeza e a beleza, que estão sendo empreendidas pelo poder público. A primeira e a segunda dessas exigências estão tendo prioridade por parte da administração pública de Fortaleza, principalmente na parte central da cidade, chegando mesmo a uma compulsão que, devemos ressaltar, está beneficiando somente algumas áreas da cidade e da população, enquanto uma maioria encontra-se na marginalidade do processo, e tendo de resistir a rede de vigilância e aos mecanismos da disciplina impostos para manter a ordem vigente.
 Assim, à medida que esse processo modernizador avança, através do culto obrigatório do limpo, do saudável e do belo, conforme as administrações públicas que vem se seguido, esta maioria de marginalizados vai resistindo e criando formas de explicitar sua insatisfação cada vez mais crescente, manifestada pela irreverência, pelo deboche e pela vaia, entre outras.
 Essas remodelações sócio-urbanas, impostas na Praça do Ferreira com intuito de modernizá-la mediante equipamentos tecnológicos, vem enfrentado duas problemáticas, causadas pela expansão da cidade de Fortaleza: crescimento populacional e comércio ambulante, controlados através de técnicas disciplinares pela prefeitura de Fortaleza. Além disso, pode-se também falar que com o surgimento dos não-lugares da supermodernidade, está havendo uma nítida contradição. Isto porque a cidade antiga de Fortaleza, Centro da cidade, não se desenvolvia de forma que pudesse absorver um significativo aumento de automóveis e de pedestres.
 Sem esquecer o contexto mundial, essas imposições ficaram nítidas no governo de Accioly, quando ocorreu os conflitos de 1912 a 1914 os quais pretendiam derrubar o regime. Neste período, houve muitas reformas urbanas, empreendidas de forma arbitrárias, sem uma consulta popular. Tudo indica que essas revoltas se constituíram como protestos da massas contra essa modernização excludente. Estes protestos  se concretizaram através de depredações, incêndios e destruições de ícones da modernidades, deixando as elites da cidade apreensiva.
 Logo que cessou a Primeira Grande Guerra e as revoltas na cidade houve uma mudança significativa. Antes a administração pública se pautava no embelezamento do patrimônio público, inspirado pelo ideal de modernidade cujo paradigma era a cidade francesa de Paris na chamada belle époque européia, agora também numa racionalidade. Isto ficou notório com a reforma feita na Praça do Ferreira pela gestão de Godofredo Maciel em 1925. Ela não tinha mais seu estilo clássico, porque seus cafés e o Jardim 7 de Setembro foram demolidos para facilitar a passagem dos veículos e dos pedestres, ficando somente canteiros de flores retilíneos e estreitos e no centro de logradouro foi construído um coreto. 
 Se esse advento mundial ficou caracterizado como o fim dos belos tempos na Europa. Em Fortaleza, foi a destruição desses equipamentos símbolos de inspiração francesa.  Assim na década de 20, conforme Pontes (2000), “tem início a constituição de uma nova organização do espaço urbano fortalezense, mais pautada pela racionalidade do que pelo embelezamento” (p.186).
 Da década de 1920 para a década de 1930, o Centro de Fortaleza tem tido a função de concentrar a maioria dos setores de serviços, ao se adquirir esta funcionalidade ele passa da tranqüilidade, do conforto e da beleza de suas praças para o barulho, para o congestionamento de avenidas, construídas para dar passagem aos carros em alta velocidade, fazendo com que as elites se dispersassem para outros bairros como Jacarecanga, por exemplo.
 É exatamente na década de 1930 que esse ideal de modernização racional, toma como referencial os espaços públicos e as edificações centrais de Fortaleza. Eles passam novamente a sofrerem intervenções urbanas a fim de torná-los verdadeiros cartões-postais, contando; para isso, com investimentos dos setores público e privado. Por exemplo, no caso da Praça do Ferreira conhecida também como o “coração da cidade”, ela fora reformada no governo do prefeito Raimundo Girão em 1933, o Coreto da gestão anterior foi derribado e em seu lugar foi posto a Coluna da Hora.
 Essa substituição do Coreto pela Coluna da Hora não fora casual, mas intencional a fim de dar ao espaço da praça uma funcionalidade, ou seja, se a praça era o “coração da cidade” por abrigar a emoção e o dinamismo da capital, agora também indicava uma “uniformidade do tempo”, porque passou a “se configurar como espaço conspícuo e referência primordial do tempo, a praça recrudescia no imaginário da cidade como lugar do centro” (Silva Filho, 2002:60).
 Remodelada mais uma vez em 1991 a Praça do Ferreira, obra dos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce Leon, tornou-se moderna descrita pelas suas novas características como: plana, ampla, larga, pelos seus passeios, bancos e pelas suas árvores. Essa nova fisionomia deu ao espaço dela uma funcionalidade, ao mesmo tempo, maior visibilidade e transparência, expondo todos aqueles que têm estado no interior do perímetro dela a um tipo de olhar imediato, coletivo e anônimo, conhecido como panóptico, uma técnica disciplinar generalizável. Devido a esse recurso arquitetural ela tem pretendido ser o espaço da opinião pública de Fortaleza.
 Desta forma, foi preciso controlar todo tipo de eventos manifestados naquele local, por exemplo: campanhas educativas, cerimônias, comemorações, acontecimentos políticos e outros. Estes eventos para que pudessem ocorrer deverão primeiramente ser solicitados e somente então autorizados pela Secretaria Executiva Regional II (SER II), uma subdivisão administrativa da Prefeitura de Fortaleza, a qual tem a atribuição de autorizar a utilização do espaço público do Centro da cidade, como também a linguagem proferida ali, ou conforme Certeau, essa divisão do espaço da praça autoriza também uma prática panóptica cuja vista transforma “as forças estranhas” em objetos.
 Por isso, podemos dizer que estar havendo disputas pela autorização do chamado “discursos institucionais” delegados a SER II, por várias entidades, organizações da sociedade civil e mesmo outras instituições públicas, devido ao fato do espaço da praça ser um ponto estratégico por abrigar um grande fluxo de pedestres. Favorecendo, assim, à pratica do discurso, constituindo-se a prova que nos habilita a dizer que esses eventos são passíveis a previsão, porque eles são comunicados mediante solicitações ou ofícios àquela secretaria. Em cada comunicação desta tem sido indicado o dia em que cada evento deverá ocorrer, no seu respectivo horário da início e de término.
 Para se controlar “este estado de coisas”, na falta de expressão melhor, foi preciso instalar um sistema de vigilância hierarquizada na Praça do Ferreira, ao mesmo tempo, se pretendeu exercer um poder em sua forma capilar, tornando seu exercício o menos custoso possível, pois tem sido mais eficaz e rentável ao cofre público vigiar do que punir. Para isso, tal sistema tomou como encarregado Cícero Bento de Morais; cuja função tem sido de fiscalizar os trabalhos de seus funcionários, relativos à limpeza, à vigilância do comércio ambulante e a guarda municipal. Essa vigilância hierárquica funciona como uma espécie de máquina social, metáfora que explicita relações de poder cujo formato lembra uma rede de relações de alto a baixo, ou mesmo de baixo para cima e lateralmente; apoiando-se, assim, uns nos outros.
 Tal sistema penetra os lugares mais escondidos, por exemplo, a sala subterrânea do administrador da Praça do Ferreira, servindo-lhe de “esconderijo” porque, conforme sua função, ele deve ser indiscreto com respeito a quem ele observa, ao mesmo tempo, manter a maior discrição possível dele mesmo; logo, caracterizando-se como o principal instrumento de controle da disciplina que também se utiliza do um registro contínuo de conhecimento, levado a efeito mediante comunicações dele para essa secretaria e dos relatórios sobre a praça feitos por ele. Esses relatórios têm a forma técnica do “quadro vivo”, utilizada por ele para organizar o múltiplo, para percorrê-lo e impor uma ordem. Com isso, ele exerce um poder cuja capacidade transforma “as incerteza da história em espaços legíveis”, conforme ainda Certeau, este poder reconhece um saber específico que sustenta e determina a tal poder conquistar a Praça do Ferreira.
 Percebemos, assim, conforme as descrições desses relatórios, uma gestão voltada para estabelecer uma ordem, uma organização racional do espaço da Praça do Ferreira, ao mesmo tempo, uma preocupação com a beleza e uma compulsão por limpeza. À maneira de Freud, detectamos uma mal-estar, devido a exigências por parte da civilização, no sentido de normas de conduta para melhorar o relacionamento humano. Nesta perspectiva, pretende-se tornar o Centro da cidade “multifuncional” para ajustar aos efeitos da supermodernidade. Contraditoriamente, essas ações ainda não foram eficazes, porque  as reformas empreendidas estão sendo problemáticas para o convívio humano, pois os não-lugares não integram  os lugares de memória como a Praça do Ferreira.

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